Fazer uma apresentação de mim mesmo através das personagens da minha vida de leitor revelou-se um exercício bastante agradável. Primeiro porque me fez recordar bons momentos quando o tempo para a leitura não precisava de ser roubado a tudo o resto que temos para fazer e que nunca conseguimos concluir, em segundo lugar levou-me a encontrar tempo para ir aos arrumos à procura dos títulos de que irei falar.
O primeiro livro que faz parte das minhas recordações é um livro de B.D. com uma história passada na guerra do Vietname, o qual provavelmente já não existirá a não ser que tenha conseguido resistir à passagem do tempo escondido em alguma caixa perdida em casa dos meus pais. Nessa história um grupo de soldados tentava atravessar o território inimigo a fim de levar de volta para o Q.G. informação vital para o “esforço de guerra”. Escusado será dizer que os heróis enfrentavam uma série de situações extraordinariamente difíceis sendo sempre bem sucedidos, sucesso esse para o qual contribuía sempre e de uma forma decisiva o capitão do pelotão, do qual já não me lembro do nome mas a quem invejava secretamente as aventuras bem como a namorada que surgiu ao longo da história, portadora ela da tal informação vital. Curiosamente nunca soube como a história terminava pois nunca cheguei a comprar o número seguinte da revista. Tantas vezes obriguei a minha mãe a ler-me essa história, ela lá refilava, e muito, mas no fim cedia sempre.
Depois com a escola e a descoberta do prazer da leitura vieram a Ana, a Zé, o Júlio, o David e o Tim – the famous five – os mais fantásticos heróis de sempre! Os livros da colecção eram lidos e relidos ao ritmo de 2 por mês através de um acordo que fiz com a minha mãe e com uma vizinha amiga; desde que eu não tivesse más notas elas iam comprando os livros. A minha personagem favorita era o David, o mano do meio que estava sempre presente quando era preciso ajudar fosse quem fosse. Tantas vezes que eu sonhei com as colinas e as quintas por onde eles passavam, as ilhas e os poços misteriosos, os amigos que encontravam, as aventuras vividas, algumas de meter medo mas que no fim terminavam sempre da melhor maneira.
Também na sala de aula e por intermédio uma professora estagiária descobri que havia crianças que sabiam ser tão fortes como os adultos quando lutam por algo em que acreditam e então a Beatriz e o seu Plátano foram acrescentados à minha lista de heróis.
Por volta dos meus 12 anos li aquele que foi o meu primeiro livro para adultos e vibrei com a aventura, com as graçolas e com o duplo sentido das frases, especialmente este último, com que o meu herói de serviço, o comandante Dirk Pitt no livro a “A chantagem do Vixen 03”, ia descobrindo onde estavam afinal as ogivas preparadas para uma guerra química e que ameaçavam, como não podia deixar de ser, os gloriosos E.U.A.
Anos mais tarde coloquei de lado a minha faceta belicista e encantei-me com Fernão Capelo Gaivota, as suas descobertas, a sua luta e os seus sonhos. Foi um dos livros que mais empolgou. Mais tarde, e para não prolongar muito esta minha apresentação - pois ninguém gosta de conhecer pessoas aborrecidas - encontrei um outro livro que me empolgou muito também. Com Pennac e com o seu “Como um romance” reformulei a minha ligação com os livros e com a sala de aula e dei por mim a sonhar com e a tentar descobrir quem seria ao certo aquele professor que me maravilhava: “Ele chegava às terças-feiras de manhã, desgrenhado pelo vento e pelo frio, na sua moto azul e ferrugenta. Dobrado, com um capote de marinheiro, com o cachimbo na boca ou na mão. Esvaziava um saco de livros em cima da mesa. Era magnífico.”
Magnífico não serei, mas desde então que tento de alguma forma replicar na minha sala de aula os conhecimentos que este livro nos revela…uma vezes com sucesso, outras com alguma tristeza…outras...e foi assim que cheguei às bibliotecas escolares.
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